24 de outubro de 2026
Parece uma banana gigante, mas seu fruto é intragável: a "planta milagrosa" que passa anos debaixo da terra e pode salvar milhões da fome | CNN Brasil

Os Apelidos das Culturas Agrícolas

As culturas agrícolas frequentemente recebem apelidos muito elogiosos. O algodão, por exemplo, é conhecido como “Ouro Branco” desde o século XIX, enquanto o trigo é chamado de “Rei dos Cereais” em várias regiões. Entretanto, poucos produtos recebem elogios tão altos quanto o ensete, que é rotulado como “árvore contra a fome”, “banana turbinada” ou “cultura milagrosa”. Se você não reside na Etiópia, é provável que nunca tenha ouvido falar dessa planta.

Embora o ensete seja um alimento fundamental para mais de 20 milhões de habitantes da África Oriental, sua relevância global é insignificante quando comparada a três culturas que fornecem mais da metade das calorias consumidas no mundo: arroz, trigo e milho.

Como é Cultivado o Ensete?

O ensete selvagem se origina de várias regiões da África, desde o norte do Sudão até Moçambique, mas sua cultura é quase exclusiva da Etiópia. A produção acontece principalmente nas áreas montanhosas do sudoeste etíope, em altitudes que variam de 1.500 a 3.000 metros acima do nível do mar. A planta é caracterizada por fileiras que podem ser confundidas com árvores, cujas folhas verdes atingem até 5 metros de comprimento.

Embora pareça uma bananeira, o ensete é, na verdade, uma erva gigante, desprovida de tronco lenhoso. Seu “tronco” é um pseudocaule formado por camadas de folhas sobrepostas, e sua base inclui um cormo — uma raiz carnosa que se assemelha a um grande tubérculo. Após ser pulverizado, misturado com levedura e fermentado em fossas subterrâneas, o ensete resulta em um alimento básico etíope, chamado “kocho”. O líquido extraído, conhecido como “bulla”, pode ser reidratado para produzir bolinhos ou mingau.

Os Benefícios do Ensete

Os frutos do ensete, no entanto, não são comestíveis. Embora a planta seja robusta e possa ter rendimentos elevados, seus frutos são praticamente imcomíveis, repletos de sementes duras e sem polpa saborosa, o que lhe rendeu o nome de “banana falsa”.

Apesar disso, essa planta oferece diversos benefícios. O ensete é altamente produtivo e possui grande resistência à seca e a doenças. Apenas 60 plantas podem alimentar uma família de cinco pessoas por um ano. Além disso, essa cultura pode sobreviver por mais de dois anos sem replantio, em contraste com a maioria das grandes culturas alimentares, que completam seu ciclo em uma só estação.

Um estudo, co-escrito pelo biólogo James Borrell, sugere que as áreas atualmente cultivadas poderiam ser ampliadas em até 12 vezes, potencialmente alimentando mais 111,5 milhões de pessoas na África Subsaariana, uma região onde a insegurança alimentar tem crescido, apesar do aumento na produção agrícola global. O ensete também mostrou potencial para ser cultivado em diversas regiões ao redor do mundo, adaptando-se a diferentes climas. Esta afirmação foi comprovada em abril de 2023, quando o ensete floresceu pela primeira vez na Estufa Temperada de Kew Gardens, um espaço dedicado à flora de regiões temperadas.

Por Que o Ensete É Exclusivo da Etiópia?

De acordo com Borrell, barreiras culturais e históricas dificultam a disseminação do ensete fora da Etiópia. O país controla de forma rigorosa a transferência internacional de materiais vegetais, buscando proteger sua biodiversidade contra a biopirataria. Um caso em 2019, envolvendo patentes holandesas do teff, um grão também nativo da Etiópia, gerou discussões entre cidadãos e autoridades sobre a proteção do patrimônio nacional.

Embora outros países possam importar ensete, suas variedades selvagens não têm valor nutricional comparável à cultivar domesticada da Etiópia. Apesar de os Jardins Botânicos Reais de Kew terem conseguido importar duas amostras em 2019, isso ocorreu sob a condição de que todo o material seria descartado após os estudos. A confiança mútua é essencial para a expansão do cultivo.

A colheita do ensete é um processo trabalhoso, realizado principalmente por agricultores. Apesar de estarem em desenvolvimento soluções mecanizadas nas universidades etíopes, elas ainda não foram amplamente adotadas. A metodologia de cultivo é complexa e desenvolvida ao longo dos séculos, além de requerer um conhecimento específico para a transformação do ensete em alimento.

Borrell também ressalta a importância de promover culturas menos conhecidas como o ensete. A ideia é encorajar os agricultores a diversificarem suas produções, em vez de se concentrarem exclusivamente nas grandes culturas comerciais. Projetos locais têm sido criados para ajudar os agricultores etíopes a manter a diversidade de cultivos, oferecendo compensações financeiras por plantio de variedades ameaçadas de extinção. Ele conclui que esse incentivo não é apenas uma perda para a Etiópia, mas para todo o mundo.

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